É na voz de Ed Motta que lembramos que “há um lugar para ser feliz, além de abril em Paris, outono, outono no Rio”. Pois começamos bem o outono. Ainda há muito sol sobre a cidade e muito azul para os olhos de quem chega. Faz tempo que o Rio é bonito no outono. O mês de maio é considerado o mais azul por aqui. E enquanto vivemos esses dias azuis, deixamos aqui as linhas de Elsie Lessa, ainda muito atuais.
Fotografia by Sergio Fonseca
Enquanto é maio
Durante quatro ou cinco meses por ano o Rio é uma cidade desesperadamente infernal, com seu calor. E eis que de repente os termômetros se comportam e o céu azula e o ar se limpa e purifica, o mar lava as suas ondas, as árvores pintam de luz o verde das suas folhas e tudo se adoça dentro e fora dos seres humanos.
E me inquieto e quisera ser ubíqua e onipresente, pois não posso sair daqui, nem um minuto, e perder o Rio, nos seus dias de maio. E Petrópolis, ali junto, está um delírio de beleza. Teresópolis, Friburgo, Penedo, Itatiaia, São Paulo, Caraguatuba, Parati e Vila Bela hão de estar igualmente esplendorosas. E que diremos de Salvador e Recife, quem sabe se até Brasília? Pois é maio em todas elas. O que sobremaneira nos inquieta, pois já não será possível festejar o acontecimento em todas essas latitudes.
E vos escrevo, vigiando a paisagem pelas janelas abertas, pois não sei se ficará muito tempo assim à minha espera. E tenho remorsos de ir ao cinema e teatro, pois é um privilégio assistir a tais espetáculos em maio, mas uma tristeza perder um minuto que seja de maio, do lado de fora deles.
E é mister reunir os amigos e amar mais do que nunca os bem-amados e agradecer – ah, não vos esqueçais – aos vossos deuses, não importa quais sejam, o breve, o precário, o maravilhoso privilégio de estardes vivos e sãos e alegres, em maio.
Elsie Lessa, A Dama da Noite
Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1963.







